terça-feira, 19 de agosto de 2014

O elogio da boa vida…numa garrafa de branco.


“Boa é a vida, mas melhor é o vinho.
O amor é bom, mas é melhor o sono.”
                                           Fernando Pessoa



A vida pode ser boa e saborosa em qualquer altura do ano…mas é especialmente boa em Agosto. Quando o vento é quente e pastoso e na rua as pessoas se movem ao ritmo do descanso estival.

Mesmo num ano atípico como este, em que o vento suão não tem apertado nas noites, Agosto é um mês de abrandamento e de indulgência.

E que pode ser mais indulgente que um branco fresco harmonizado com um prato simples, estandarte da dieta mediterrânica?

Um peixe grelhado molhado em azeite. Salada fresca de tomate e pepino com um toque de orégãos e branco. Um branco seco para uns, frutado para outros. Mas branco que o Estio é lânguido e o tinto dá sono.

Passeando pelas prateleiras do Modelo num fim-de-tarde tropecei neste Enigma, das Caves Dom Teodósio com um desconto para lá de simpático para um vinho branco que já está no linear acima dos 8€.

A nota de prova diz-nos  “Cor pálida e nariz delicadamente frutado e floral, apoiado em leves apontamentos citrinos, na boca é um vinho fácil, correcto, com uma acidez e uma estrutura medianas e um paladar pouco mais que frutado, o final de boca é curto e pouco expressivo na persistência”
E o rotulo recomenda  “Peixes grelhados, marisco, carnes brancas grelhadas e queijos suaves. 8ºC.”

Continuo sem perceber nada de vinhos. Mas o Fernão Pires casado com o Arinto soa-me sempre bem. Estamos no Tejo, que seja feito o uso das nossas castas com habilidade.

Que se abra a garrafa enquanto o peixe grelha e se vai bebericando de um copo largo, com a janela aberta para os sons da rua, para uma brisa demasiado fresca para uma tarde de verão, que os sentidos se despertem para um mundo de sabores. Que o álcool no inunde lentamente e nos afunde no deleite inocente dos pequenos prazeres da vida.

Um dia, em frente a uma mesa simples um amigo disse-me perante um vinho trazido da serra, sem rotulo nem certificação, meio quente saído do garrafão. "Ângela, não compreendo este vinho. Há qualquer coisa mais, ele fale comigo, mas ainda não o decifrei."

Na altura intrigou-me a ideia. Hoje percebo essa ideia de que cada vinho fala connosco, conta-nos a história do seu terroir, das mãos que o colheram no declínio do Estio, da ideia de perfeito que o enólogo desenhou para as uvas que tinha na mão.

Este Enigma é claro. Fernão Pires e Arinto, é uma história simples...vem sendo contada pelas gentes do Tejo.

É um elogio à boa vida...porque há vida boa só temos de a saborear.


P.S. Para saborear com o Astral Weeks. Van Morrison..um dos meus álbuns favoritos.

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